08 dezembro 2006

Só por hoje acabou a ternura... só por hoje?


Titulo II - Sentimentos fragmentados ou desfragmentados!

Hoje não quero escrever nada,
Não quero pensar em nada,
Porque tudo que penso são farpas, e tudo que escrevo é o que penso, e tudo o que penso é o que sinto...
Alguns dias poderiam não existir, mas por que não existir?
Se tudo é necessário, também as farpas o são!
A velha crença de que tudo que faço, faço mal feito, atormenta-me, endurece-me, aprisiona-me e cega-me...
E hoje eu não vejo nada, nada de mais, nada de menos.
E o que ontem era belo, foi ontem!
Porque por mais que eu queira fugir de mim, estou sempre aqui dentro.
Não escrevo para os outros lerem, escrevo para me descobrir, e às vezes descobrir-me não me dá prazer...
Causa-me sim mal estar, e deve causar a quem lê, por isso escrevo para mim.
Já é um pesar causar-me mal estar, quanto mais a outro alguém.
Hoje tenho algumas dúvidas e algumas certezas:
Tudo que começa, acaba?
Tudo que inicia tem algum propósito?
Não sei, não sei, só sei que:
Acabou sem começar
Iniciou sem nenhum propósito
Encantou sem se esforçar

Acreditou sem duvidar
Falou por falar
E depois saiu sem causar dor!
Chega! Hoje tudo são farpas, sinto-me indelevelmente patética, mas só por hoje!

Só por hoje?

****

"Até agora eu não me conhecia,
Julgava que era eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.
Mas que eu não era eu não o sabia
E, mesmo que o soubesse, o não dissera...
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim... E não me via!
Andava a procurar-me - pobre louca!
(...)
E esta ânsia de viver, que nada acalma,
(...)"

Florbela Espanca

Um comentário:

nuno portmore disse...

Faz frio em Mértola. Daquele que se entranha. Faz tanto frio que se expirarmos com força suficiente... talvez a alma espreite pela boca... tropece e caia em cubos de gelo na calçada.

Mas amanhã fará calor. Esse calor que convida a passeios à beira rio, ou junta amigos para um bailarico numa qualquer aldeia... duma qualquer terra.

Farpas são como agulhas. Picam, podem até magoar. Mas a esforço, quem sabe se não cosem histórias começadas, acabadas, ou sonhadas?

Quem sabe se... nos dias de muito frio... não serão farpas a iniciar o coser dessa manta que nos aquecerá a alma?

Quem sabe?

Bjos

p.s. na verdade... nunca faz assim tanto frio