17 fevereiro 2026

(Des)Controle: memória, gatilhos e o milagre do “só por hoje”

Hoje, 16 de fevereiro de 2026, fui ao cinema assistir ao filme (Des)Controle acompanhada do meu filho, Gabriel. A temática gira em torno da dependência química relacionada ao álcool, o alcoolismo - uma das drogas mais devastadora que existe.

O filme, de certa forma, pega leve com a realidade de uma mulher alcoolista. Digo isso por experiência própria. Em vários momentos, percebi uma romantização da problemática, uma superficialização da dor, das perdas e da complexidade da doença. Ainda assim, reconheço: um filme como esse já representa um passo importante para que o tema seja discutido em âmbito nacional. Falar de alcoolismo feminino ainda é falar de um tabu.

Durante o filme, meu filho chorou algumas vezes. E eu chorei também. Chorei lembrando das inúmeras vezes que fiz ele sofrer - pelo sentimento de abandono, pela vergonha, pelas ausências que não eram apenas físicas, mas emocionais. Cada cena parecia abrir um capítulo da minha própria história, como se o roteiro tivesse sido escrito com fragmentos da minha memória. Muitos gatilhos foram despertados. Muitas imagens internas voltaram.

Mas, ao final, veio um alívio profundo. Apesar das semelhanças com a vida real, aquilo era ficção. Eu não estou mais lá. Eu não sou mais aquela mulher. O passado existe, marca, dói - mas não me define por inteiro.

SÓ POR HOJE ESTOU HÁ 5 ANOS 4 MESES E 27 DIAS LIMPA!

Essa frase carrega uma filosofia inteira de sobrevivência. O “só por hoje” não é minimização do tempo, é compromisso diário com a vida. É lembrar que a dependência é uma doença crônica, mas a recuperação também é um processo contínuo, construído todos os dias, com escolhas pequenas, mas decisivas.

Assistir ao filme ao lado do meu filho, chorar junto, lembrar e ao mesmo tempo perceber o quanto avançamos, foi uma experiência paradoxal: dolorosa e libertadora. Ali, no escuro da sala de cinema, percebi que minha história não é apenas sobre queda. É sobre reconstrução. Sobre vínculos refeitos. Sobre a possibilidade real de reescrever a própria trajetória.

O filme termina. A vida continua. E eu sigo, só por hoje, escolhendo estar presente.

**A cena em que a protagonista desperta na praia após uma 'bebedeira', observando no céu pipas ou pandorgas no formato que remetem a “mãe d’água” ou vespa-do-mar (Chironex), pode ser interpretada como uma metáfora visual da ambivalência do álcool: esteticamente sedutor, etéreo e socialmente romantizado, mas biologicamente tóxico e potencialmente letal. (Entendedores entenderão).
Por Lidiane Jardim
(Luz da Lua)